Estampa – Jan 02

Banho zen

Cedro-rosa, freijó e jacarandá-da-baía: madeiras térmicas e agradáveis ao toque Foi depois do encontro entre o mitológico deus Izanagui, representante da energia Yin, com a deusa Izanami, de energia Yan, que nasceu Amaterassu.

Durante o banho purificador de Izanagui, ela surgiu em meio a água enquanto o pai lavava o olho esquerdo. Deusa-sol, símbolo da beleza e considerada ancestral espiritual da família imperial do Japão, é a Amaterassu que remetem os milenares banhos de imersão.

Descrito no Kojiki, livro que reúne os mais antigos escritos japoneses, o mito explica a tradição: cada vez que se entra num ofurô promove-se um ritual de comunhão com o universo criador e uma integração do humano com os elementos divinos da natureza – sendo a água o símbolo maior dessa representação. Na interpretação ocidental, o meio líquido e o aconchego do calor da água reproduziriam a segurança do útero materno.

Tradição Milenar

Os banhos de ofurô tiveram origem na mitologia japonesa e representam a integração do humano com a natureza divina.

Feitos artesanalmente, podem ser instalados no jardim, na varanda do quarto ou no banheiro Ajudar a resgatar o bem-estar primordial, o relaxamento e a plenitude vem sendo a arte desenvolvida por Wilson Alves.

Mesmo sem ter ascendência nipônica ou tendência ao esoterismo, ele uniu em seu trabalho o hábito oriental a outro elemento da natureza: a madeira. Acabou criando, nos últimos três anos, uma das mais perfeitas técnicas artesanais de produção de ofurôs, as banheiras japonesas que os imigrantes trouxeram para o país no início do século passado. Com minúcia e paciência dignas de um sábio mestre é que os objetos de Will, como é conhecido, são feitos.

Ele dispensa o uso de pregos ou colas. As tinas em madeira, sempre cilíndricas, são cortadas e montadas por um encaixe perfeito das peças. O artífice chega a passar 15 horas ininterruptas diante de uma nova criação.

Não por outro motivo, seu trabalho agrega exclusivismo e personalidade, não ultrapassando o limite de seis unidades mensais. “Meu primeiro protótipo era retangular, mas muito desconfortável”, lembra. Com dedicação, ele chegou à variedade de hoje: de um ofurô “simples”, para uma pessoa, até modelos para nove ocupantes simultâneos que permitem a confraternização em grupo, a exemplo do que fazem os japoneses.

A duração de cada ofurô chega a 200 anos, garante Will. Depois de prontos, eles podem ser adaptados para ter aquecimento a gás, elétrico, solar e ainda hidromassagem.

Aperfeiçoamento

Sempre foi o caminho trilhado pelo Gepeto brasileiro.Arquiteto, em seus tempos de estudante na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo ganhou inúmeros prêmios por suas esculturas em madeira. Com o último deles, no valor de U$ 20 mil, engavetou o diploma e montou um ateliê, o Will Arte e Artesanato, em São Paulo, verdadeiro templo no qual dedica-se ao prazer de trabalhar sua arte.

Para quem é convidado a conhecê-lo, impressiona a iluminação calculada que entra pelo engenhoso telhado, a 12 metros de altura. O feixe de luz revela um resquício de pó de serragem no ar, criando um ambiente etéreo acentuado pela profusão de aromas de madeira no ambiente – cedro-rosa, jacarandá-da-baía e freijó são hoje as preferidas dele. “São estas madeiras que garantem o calor da água por mais tempo e despertam a sensação de suavidade e conforto no toque direto com a pele”, explica.

Em geral, a temperatura da água para imersão num ofurô vai dos 25 aos 32 graus (no Japão, há quem arrisque até 45 graus). Os exemplares feitos em madeira fazem com que a perda calórica da água seja de um grau a cada hora, nos modelos abertos, e de apenas meio grau/hora, no caso dos produtos com tampa – um opcional oferecido por Will.

Não raro, quem adquire os ofurôs de madeira cria, mesmo que intuitivamente, um ambiente propício para desfrutá-los. “Comprei um modelo para duas pessoas e o instalei no jardim de casa”, diz Stefan Kozak, diretor da Panamco. Austríaco, ele reserva seus momentos de imersão para relaxar contemplando o céu.

Muito usado também para finalidades terapêuticas, como ativamento da circulação sanguínea e combate a dores musculares, o produto tornou-se um hit nos spas do todo o país, que freqüentemente adicionam óleos essenciais, sais, ervas, pétalas de rosas e tudo mais que a mística permitir. Mas o ofurô, originalmente, reservaria um certo ritual para seus usuários: os japoneses jamais o utilizam para a higiene pessoal. Sempre toma-se uma ducha antes da imersão.

Madeira da vida

Antes de dedicar-se à produção das tinas, o arquiteto e designer Wilson Alves (acima) lançou pentes de madeira, na década de 70, estantes “colméias” e a linha lúdica, com quebra-cabeças e cavalinhos de madeira articulados (R$ 200) Muito antes, porém, de colaborar com o universo zen, o refinado marceneiro Wilson Alves foi autor de um dos mais simples objetos da penteadeira brasileira.

No final dos anos 70, começou a fazer os ainda hoje cultuados pentes de madeira. “Queria algo inédito, artesanal e do qual detivesse os segredos de produção”, conta. Reinou por quase dez anos no mercado, com picos produtivos de até 15 mil unidades por mês, até passar a enfrentar a concorrência de quem havia aprendido com ele. Sempre com idéia fixa na simplicidade que proporciona prazer, Will passou às incursões no universo lúdico.

São desse período os quebra-cabeças, estojos, caixas e os nostálgicos cavalinhos de madeira. As variações do brinquedo tiveram origem na sensibilidade e na imaginação do artista. “Eu trabalhava num cavalinho quando, por acaso, ele equilibrou-se em duas patas. Um amigo brincou que, um dia, eu conseguiria fazê-lo ficar sobre uma pata só. Tive um insight e consegui realizar a façanha”, explica.

Como nem só de sonhos vive uma energia criativa, ele também guarda no currículo seu momento “Phillippe Starck”. Em 1984, foi sondado e recebeu a oferta da badalada grife francesa Christoffle para desenvolver alças de madeira para seus artigos.

Estrutura mágica

Feitas uma a uma, as tinas são fruto de um encaixe perfeito, sem o uso de pregos ou cola. Acima, três modelos ovais individuais (preço médio, R$ 4,7 mil) e, à direita, namoradeira oval com duplo espaldar (R$ 5,8 mil), na Will Arte e Artesanato Foi o pretexto que precisava para desenvolver, ele próprio, uma máquina única capaz de entalhar peças em qualquer formato. “Demorei um ano para criá-la e fazê-la esculpir as formas mais malucas. Gastei quase todo o dinheiro que ganhei na época dos pentes”, revela bem-humorado. Tão amada quanto Pinóquio por Gepeto, a máquina não fica na marcenaria, tamanho o mistério que a cerca.

Uma série de novos projetos saltita na cabeça inquieta do artista, entre eles a criação de mobiliário para um projeto que levará uma biblioteca itinerante para escolas na Amazônia e a vontade de ensinar presidiários a confeccionar pentes de madeira. Enquanto isso, a produção de ofurôs está a todo vapor.

Mas na visão de Will, quem os utiliza deve mergulhar na viagem. “As tinas têm de envelopar as pessoas para que tenham uma sensação gravitacional na água. Entrar nelas é como ir para a Lua.” Os ocupantes da nave de Will talvez tenham encontro marcado com a deusa-Sol Amaterassu.